A Lavanderia Brasil, o Baile de Máscaras dos Medalhões e a Subversão do Espírito
Do Banco Master ao cultivo do espírito: por que a lavagem da alma é o verdadeiro ato de resistência contra a cultura do crime e o jogo de aparências.
Por Marcos Veloso
A Lavanderia Brasil, o Baile de Máscaras dos Medalhões e a Subversão do Espírito
O Brasil é mesmo peculiar. Vivemos uma espécie de “anomia com regras”. Temos leis aos borbotôes e uma profusão de instituições, mas normalizamos o descumprimento e a impunidade. Na prática, nossas instituições atuam mais para própria preservação ou para a defesa de interesses privados do que para o cumprimento de suas finalidades legais.
Perpasso aqui algumas de nossas mazelas para, ao final propor uma saída que suplanta o frenesi das urnas.
Em tempos de confronto ideológico, a política tudo obscurece, mas nosso problema imediato é a metástase criminal. Dentro desse gênero foquemos na espécie dos crimes econômicos, onde tudo parece contaminado: governos, instituições, política, sociedade, polícia e até o esporte. Clubes e bets se converteram em escoadouro para lavagem de dinheiro, com transações de atletas sob valores injustificáveis – um escândalo cujo estopim está próximo).
Observemos o indecoroso caso do Banco Master: não se trata de uma instituição financeira que descambou para atividades criminosas. Pelo contrário, foi concebido e agigantado exatamente para servir a esquemas de ocultação de capital ilícito. Veio para viabilizar principalmente dois esquemas graúdos: o orçamento secreto do Congresso; e a rapina do INSS, estendendo suas negociatas até ao Judiciário.
Essa rede abarca os três Poderes e uma miríade de investidores – de PCC e milícias a golpistas ávidos por rendimentos fora da curva. Dada tamanha capilaridade, resta pouca esperança que a “alta nobreza” seja punida. O dinheiro ilícito busca sempre atividades de difícil auditoria, onde pode ser lavado com segurança: futebol, casas de aposta, cassinos, shows, hotéis, resorts, cursos, igrejas neopentecostais etc. Consta que a profissionalização e a universalização dos nossos estratagemas já tornaram o Brasil referência na tecnologia de ponta da lavagem de dinheiro.
Nesse grau de perversão, não há outro caminho: ou avançamos punindo, ou não haverá avanço sustentável.
Outro ponto: no diagnóstico das mazelas, não devemos absolver nem nossa elite, nem o povo. Temos pouca chance de curar nossas chagas porque nosso senso de valor está distorcido. Vivemos em uma sociedade com vocação dinheirista, na qual a ascensão econômica é a principal medida de sucesso. Para nossa sociedade, vencer na vida é sinônimo de saldo bancário gordo.
Estudo, formação intelectual e evolução espiritual são supérfluos e incompreensíveis para a massa. Jogadores de futebol, artistas, apostadores sortudos: todo novo-rico faz salivar o brasileiro médio. O povo quer ficar rico, mas menospreza tornar-se sábio (é verdade que essa é uma marca da própria modernidade liberal, em grande parte das sociedades).
Aqui, todos querem “chegar lá”, mas esse “lá” é o terreno infértil da aparência, onde se pavoneiam bacharelatos, cargos e títulos como insígnias sociais – e não frutos do cultivo da inteligência.
A promoção da mediocridade é o traço marcante da sociedade brasileira. Somos, em essência, o Janjão do conto “Teoria do Medalhão”’, de Machado de Assis, que descreve, com mordaz crítica social, o mundo de aparências e hipocrisia da burguesia carioca de outrora. Esses são os medalhões.
Os “medalhões” de hoje nada mudaram em relação aos referidos por Machado. Continuam exibindo uma imagem pública oca, simulando virtude e erudição e repetindo chavões para obter aprovação social.”
Janjão aprendeu que para ascender na academia, nas repartições, nos salões da sociedade deve aparentar inteligência e seriedade, ainda que, internamente permaneça estático, vazio, sem opinião própria.
O medalhão é o mau exemplo que a elite dá à base da pirâmide. Aqueles que o elogiam são, em regra, tão ocos quanto ele. Nossos homens públicos são em sua maioria medalhões. Nenhum país avança com esse modelo de elite vazia.
Tristemente, a sociedade admira e mimetiza a afetação e a pose teatral dos Medalhões. Ela critica os ocupantes de cargos públicos, ao mesmo tempo que idolatra políticos. Em sua moral dúbia, o povo diz abominar a corrupção, enquanto saqueia a carga do caminhão tombado na estrada ou sonega o que pode.
A solução para esse estado de coisas é contraintuitiva. Spoiler da conclusão: a saída não está na política, mas na reintegração do indivíduo. Meu conselho é: saiam da política; desconsiderem ideologias e remédios coletivos; e fujam dos medalhões que manipulam paixões partidárias. Você não é responsável pela revolução dos costumes, pela transformação do sistema político, nem pela redenção do Ocidente.
A solução não virá na alternância do comando político do país, nem da troca do polo ideológico dominante. A chave está em nos voltarmos para nós mesmos; buscarmos a formação pessoal verdadeira, que não seja para exibição nos salões, academias e repartições. O cultivo do espírito é a única fronteira que realmente controlamos.
Além do autoconhecimento, o máximo de alcance que posso garantir é a influência sobre minha própria família, fortalecendo os laços com os meus. Todo o resto é externo e disperso. O meio social pode até ser útil para o aprendizado e refinamento do nosso comportamento, mas é igualmente sujeito ao mascaramento social, à dissolução da individualidade em meio ao ruído dos homens-massa, para usar a expressão de Ortega y Gasset.
No império dos “homens-massa”, o homem comum não apenas se contenta com sua mediocridade, mas impõe o direito de ser medíocre a todos os demais.
O modernismo insuflou muito do vazio, da massificação e do desenraizamento das referências morais e culturais sólidas, dobrando o homem ao império de ideologias, à confusão do coletivismo, em desfavor do que realmente promove mudanças: a transformação individual e sua influência no meio familiar. Disso sim, pode nascer uma mudança social positiva sólida.
Enquanto nos digladiamos por cores partidárias, o sistema — esse amálgama de crimes econômicos e mediocridades medalhadas — continua operando nos bastidores, imune ao voto e indiferente aos reclamos da sociedade. O cultivo do espírito é o ato mais subversivo que você pode realizar contra esse sistema.
Resguardar-se da balbúrdia não é desertar da realidade, mas finalmente ocupar o único território onde a soberania é inexpugnável: a própria consciência. Que o ambiente lá fora continue seu baile de máscaras e sua lavagem de capitais; internamente, busquemos a lavagem da alma contra a contaminação do mundo.
Em última análise, a única revolução que não degenera em tirania ou farsa é a que advém do cultivo espiritual, por meio do qual o homem vence a própria ignorância.
Marcos Veloso – Advogado e servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas.
Marcos Veloso – Advogado e servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas.