Título: A escolha do terapeuta sob uma visão junguiana
Escolher um terapeuta não é apenas uma decisão prática é, antes de tudo, um movimento psíquico. Na perspectiva da psicologia analítica, aquilo que nos atrai em alguém, inclusive em um terapeuta, não é aleatório. Existe um campo simbólico, inconsciente, que orienta essa escolha. Muitas vezes, buscamos no outro aquilo que sustenta o que já somos e não necessariamente aquilo que precisamos nos tornar.
Durante muitos anos, permaneci em terapia com um terapeuta que atendia perfeitamente à minha demanda. Era acolhedor, competente, cuidadoso. Eu me sentia vista, compreendida e, acima de tudo, confortável. E isso, naquele momento, era suficiente. Eu estava bem. Ou, pelo menos, acreditava estar.
O conforto, porém, pode ser uma armadilha sutil.
Na linguagem junguiana, poderíamos dizer que eu estava bem adaptada ao meu ego mas não necessariamente em processo de transformação. A terapia cumpria sua função de sustentação, mas não promovia confronto com conteúdo mais profundos. Não havia fricção suficiente para gerar mudança. E, sem tensão, não há transformação psíquica.
Com o tempo, comecei a perceber que aquele espaço seguro, embora importante, já não me impulsionava. Algo em mim pedia mais. Não mais acolhimento apenas, mas confronto. Não mais estabilidade, mas movimento.
Foi então que iniciei meus estudos na psicologia analítica. E, nesse caminho, encontrei um professor.
Logo no primeiro contato, fui convidada ou melhor, convocada a realizar um teste clássico: o teste de associação de palavras. Um instrumento simples na forma, mas profundamente revelador. E foi ali que aconteceu o inesperado.
Ele me confrontou.
Sem rodeios, sem suavizações. Corrigiu-me de forma direta. E, naquele instante, algo dentro de mim reagiu: “Como ousa?”
Essa reação, à primeira vista, poderia ser interpretada como resistência e, de fato, era. Mas também era um sinal importante. Algo havia sido tocado. Algo que, até então, permanecia protegido pelo conforto.
Após refletir profundamente, tomei uma decisão que, naquele momento, parecia quase impulsiva, mas que hoje reconheço como profundamente simbólica: decidi fazer terapia com ele.
E por quê?
Porque percebi que ali existia algo que eu ainda não havia experimentado: o confronto necessário para o meu crescimento.
O processo não foi fácil. Muito pelo contrário. Foi desconstrutivo.
Ao longo de três anos, fui sendo atravessada por questionamentos, interpretações e silêncios que me obrigaram a olhar para aspectos meus que antes eu evitava. Máscaras foram caindo. Defesas foram sendo reconhecidas. E aquilo que eu acreditava ser “quem eu era” começou a se reorganizar.
Esse tipo de processo exige coragem. Porque não se trata apenas de falar sobre a vida trata-se de vivê-la com mais consciência. Trata-se de permitir que o inconsciente emerja, mesmo quando isso desestabiliza.
E é aqui que reside um ponto fundamental na escolha de um terapeuta: ele não deve ser apenas alguém que valida o que você já sabe sobre si. Ele precisa, em algum momento, tensionar, provocar, ampliar.
Isso não significa falta de cuidado. Pelo contrário. O verdadeiro cuidado, na perspectiva analítica, inclui a capacidade de sustentar o desconforto necessário para o crescimento.
Hoje, após esses anos de trabalho, não vejo motivo para buscar outro terapeuta, professor ou supervisor. Não porque ele seja “perfeito”, mas porque a relação terapêutica construída é viva, dinâmica e transformadora.
As mudanças foram nítidas. Não apenas para mim, mas também para aqueles ao meu redor. Familiares perceberam, questionaram, se interessaram. E isso, por si só, já revela algo importante: quando alguém entra em processo de individuação, o campo ao redor também se movimenta.
Essa história é importante porque ilustra algo essencial: fazer terapia não é suficiente. É preciso viver a terapia.
A escolha do terapeuta, portanto, deve considerar não apenas o quanto você se sente bem com ele, mas também o quanto você se sente provocado a crescer. O desconforto, quando bem conduzido, não é um erro é um caminho.
Se você está em busca de um terapeuta, observe:
Você se sente apenas acolhido ou também desafiado?
Você sai das sessões com respostas prontas ou com perguntas mais profundas?
Você está confortável ou em movimento?
A resposta para essas perguntas pode indicar se você está apenas se mantendo ou realmente se transformando.
Porque, no fim, a terapia não é sobre permanecer quem você é.
É sobre se tornar quem você ainda não teve coragem de ser.
Alexandra Januário
AlexandraJanuário é fisioterapeuta, terapeuta junguiana e especialista em terapias integrativas. Atua com acupuntura, iridologia e psicologia analítica, dedicando-se ao estudo da saúde mental, do autoconhecimento e da obra de Carl Gustav Jung.