A ficção da inocência: quando o poder se traveste de povo
A ficção é um componente essencial da nossa compreensão do mundo, onde a ficção e a realidade frequentemente se entrelaçam.
Há falas que não pedem interpretação: pedem apenas que se retire o véu da ingenuidade; e há mentiras que, ao serem lançadas, revelam muito mais do que deveriam
— Jorge Henrique de Freitas Pinho*

Fonte: D24am. Leia mais em https://d24am.com/artigos/jorge-pinho/a-ficcao-da-inocencia-quando-o-poder-se-traveste-de-povo/
A ficção é uma ferramenta poderosa que nos ajuda a entender a complexidade das interações humanas.
“Quando o governante descobre que pode mentir sem ser contestado, o povo aprende a sobreviver de migalhas, sem ser ouvido — e a república passa a ser administrada apenas para o saque geral.”
— Jorge Henrique de Freitas Pinho*
1. A sabedoria materna e o nascimento da mentira
Minha mãe costumava dizer, com aquele humor sábio que só a experiência concede, que há pessoas que, se a natureza tardasse um porquinho a mais na gestação, não nasceriam crianças, mas apenas um pedaço de papel com uma única palavra escrita: mentira.
Essa imagem singela e devastadora me veio à mente ao ouvir o recente discurso presidencial sobre as emendas parlamentares e o custo para obter uma CNH.
Há falas que não pedem interpretação: pedem apenas que se retire o véu da ingenuidade; e há mentiras que, ao serem lançadas, revelam muito mais do que deveriam, pelo simples fato de terem sido produzidas.
2. O discurso que revela mais do que pretende
Em uma solenidade na qual se vangloriava de reduzir os custos das habilitações para motos e para condutores categoria B, o presidente declarou:
Na ficção, podemos explorar as verdades mais profundas que moldam nossa sociedade.
“Quem é que tem quatro mil reais? Porque o povo não tem emenda parlamentar. A gente não tem emenda. Então, o povo é o seguinte: se sobrar do salário eu faço. Se não sobrar, eu não faço…”
É um caso exemplar de como a contradição interna de um discurso torna impossível ocultar a verdade.
Ao tentar produzir empatia com a população, ele acabou expondo, com surpreendente franqueza, o que pode ser a engenharia íntima do sistema político brasileiro.
E, ao esquecer-se de que ninguém é mais beneficiado pela engrenagem das emendas do que o próprio Executivo, transformou sua defesa em autodenúncia, sua humildade performativa em fábula infantil.
2.1. A verdade usada como mentira — a engrenagem do discurso
Mas há algo ainda mais sutil — e mais grave — que precisa ser explicado com didatismo para que o leitor compreenda o alcance do discurso.
A arte da ficção nos permite refletir sobre as nuances do nosso cotidiano.
Lula disse uma verdade. Mas usou essa verdade como mentira.
Sim, é verdade que a lógica das emendas parlamentares deformou o orçamento nacional. Sim, é verdade que muitos parlamentares tratam emendas como extensão patrimonial. Sim, é verdade que o sistema, tal como funciona, cria distorções, abusos e barganhas.
Mas o ponto decisivo é outro: o presidente usa essa verdade para encobrir uma mentira sobre o seu próprio papel.
Quando a ficção é utilizada de forma consciente, ela pode iluminar problemáticas sociais.
A engenharia retórica é a seguinte:
i. Ele confessa que as emendas seriam usas para interesses privados → verdade factual.
ii. Ele se coloca como vítima do sistema → mentira posicional.
iii. Ele usa a confissão para parecer humilde e próximo do povo → farsa política.
Ou seja: a verdade não é usada para iluminar o real, mas para disfarçar o ator.O que ele diz é parcialmente verdadeiro. O lugar de onde ele diz é totalmente falso.
Essa é a mentira perfeita: a mentira que nasce de uma verdade instrumentalizada.
3. A inversão moral e a normalização da distorção
É por isso que o discurso só pode ser entendido como inversão moral. Lula não mente sobre a existência da distorção — mente ao se excluir dela.
Revela o mecanismo, mas oculta a mão que o opera; descreve o problema, mas silencia sobre quem controla a liberação das verbas; aponta a anomalia, mas se apresenta como vítima da engrenagem que administra.
É na ficção que encontramos espaço para questionar e desafiar as narrativas dominantes.
Transforma, assim, uma confissão institucional em um álibi retórico, como se a verdade objetiva do sistema servisse para justificar a mentira subjetiva do ator político.
4. A falsa humildade do detentor da caneta
O trecho em que afirma “A gente não tem emenda” é o ápice dessa dissimulação.
O governante que detém a chave do cofre — e o monopólio sobre a liberação das emendas — apresenta-se como alguém tão privado de recursos quanto o cidadão comum.
Mesmo existindo emendas impositivas individuais — que formalmente pertencem ao parlamentar — o poder real continua nas mãos do Executivo, que decide o ritmo, a burocracia e a oportunidade política de sua execução.
Na prática, basta atrasar, “aguardar análise” ou priorizar aliados para que a emenda deixe de ser um direito e volte a ser instrumento de controle.
A narrativa da ficção proporciona uma nova perspectiva sobre a política e a sociedade.
É nesse intervalo entre o que a Constituição promete e o que o governo libera que se mantém o cabresto moderno: sutil, legalizado e profundamente eficaz.
Assim, quando o presidente declara não ter emendas, não está sendo modesto: está construindo uma mitologia conveniente, na qual o detentor do poder finge observar de fora aquilo que ele próprio opera.
É como ver o próprio demônio lamentar que não tem fogo, embora seja ele quem atiça o inferno.
5. O populismo da igualdade fabricada
A pergunta “Quem é que tem quatro mil reais?” é o gatilho emocional perfeito para fabricar a ilusão de igualdade material entre governante e governados.
Não por humildade autêntica, mas por uma astúcia retórica que tenta dissolver a assimetria do poder pelo sentimentalismo.
O chefe do Executivo se apresenta como alguém que partilha as mesmas privações do povo, que sofre os mesmos limites econômicos, que vive as mesmas dificuldades de pagar uma CNH.
Assim, a ficção se torna um espelho que reflete nossas próprias falhas e vulnerabilidades.
Um nivelamento moral que faria sentido na boca de um asceta; vindo de quem administra bilhões, só produz farsa.
6. O patrimonialismo como confissão involuntária
Na ficção, a crítica social ganha vida e se transforma em uma experiência compartilhada.
Ao insinuar que parlamentares conseguem arcar facilmente com despesas pessoais porque “têm emendas”, o presidente toca, talvez sem perceber, no coração da patologia política brasileira.
As emendas deixaram de ser instrumentos de organização orçamentária para se tornarem unidades de poder pessoal.
É o velho patrimonialismo brasileiro: a confusão entre o público e o privado, entre verba pública e interesse individual, entre Estado e operador.
Por um breve instante, Lula deixou cair o roteiro oficial e confessou, de forma oblíqua, que as emendas funcionam como moeda política, financiamento de influência e ferramenta eleitoral.
Uma verdade conhecida — pronunciada com a naturalidade de quem confia na imprensa para suavizar, relativizar ou silenciar.
Portanto, a ficção é fundamental para a construção do nosso entendimento sobre o mundo.
7. O silêncio estrategicamente constrangedor do Parlamento
E como reagiu o Parlamento? Com a arma mais antiga e eficiente: o silêncio.
Um silêncio espesso, calculado, meticuloso.
Não houve indignação — indignar-se seria confirmar a acusação. Não houve desmentido — negar o óbvio seria ridículo. Não houve nota de repúdio — expor o assunto detonaria o pacto interno que sustenta a engrenagem.
O Congresso preferiu fingir que não ouviu. É a ética tácita dos que sabem que qualquer ruído pode implodir o edifício.
8. A contradição filosófica exposta à luz do dia
A tradição socrática ensina a desconfiar das narrativas sentimentais que tentam conciliar contradições insolúveis.
E minha mãe, com sua sabedoria terrena, ensinava o mesmo de maneira mais direta:
“Basta alguém gritar ‘pega ladrão’ para o ladrão correr junto, fingindo indignação, enquanto esconde o produto do roubo no bolso.”
Nada captura melhor o momento. Aqui, a contradição está escancarada: quem controla os recursos diz não tê-los; quem distribui o privilégio afirma não usufruí-lo; quem sustenta a base parlamentar se apresenta como vítima da engrenagem.
É através da ficção que podemos imaginar alternativas possíveis para a realidade.
É o teatro perfeito do “pega ladrão”: o culpado corre na mesma direção do grito para que ninguém o veja.
A refutação é simples: não exige mistério filosófico. Quando o grito e a fuga vêm da mesma voz, resta apenas a velha coreografia da dissimulação.
9. A verdade irrefutável por trás da farsa
Resta a constatação serena: não existe presidente fora do sistema que opera; não há inocência possível no administrador da caneta; não há humildade verdadeira quando o poder tenta parecer pequeno para permanecer grande.
A ficção nos encoraja a sonhar com um futuro melhor e mais justo.
O discurso não revela quem o presidente é, mas quem ele tenta parecer.
E volto, então, ao ensinamento de minha mãe:
há pessoas cuja relação com a mentira é tão íntima que, se tivessem um instante a mais no ventre, nasceriam não como seres humanos, mas como a palavra que carregam na alma.
Por trás da ficção de humildade, permanece escrita, em letras grandes e ternas, a palavra que ela reconhecia tão bem: mentira.
Na interação entre ficção e política, descobrimos as verdades que, muitas vezes, ficam ocultas.
10. Pós-escrito — o silêncio consentido e a festa das migalhas
A ficção é um recurso que pode ajudar a desmontar a farsa política.
Há ainda o silêncio quase total da grande mídia, que deveria ter reagido com editoriais severos, análises profundas e debates públicos. Nada disso ocorreu.
Manchetes celebraram “o grande feito” de reduzir o valor da CNH — como se a política fosse um balcão de descontos e não o palco onde se decide o destino moral da república.
Esse recorte seletivo não é omissão: é cumplicidade narrativa.
E o silêncio não é apenas midiático. Há também o silêncio inquietante do Ministério Público Federal, sempre vigilante quando se trata de investigar qualquer deslize associado à direita, mas completamente imóvel diante de uma fala presidencial que, se verdadeira, exige investigação criminal imediata; e, se falsa, configura calúnia grave contra agentes políticos.
A omissão do MPF não é neutra: é um ato político travestido de inércia institucional, um silêncio que protege o governante, não a república.
É fundamental que a ficção continue a ser uma arena de debate e reflexão social.
Mas talvez a tragédia maior esteja no povo, fatigado, desinformado, exausto, contente com migalhas enquanto bilhões fluem para os mesmos parlamentares que o presidente critica em público e alimenta em privado.
O ciclo é perfeito: o governante acusa, o Parlamento silencia, a mídia omite, o MPF contempla, e o povo agradece — não porque compreenda, mas porque foi condicionado a confundir concessão mínima com benevolência, e benevolência com justiça.
A democracia não sobrevive quando o povo se alimenta de migalhas, o Parlamento de milhões, a grande imprensa de silêncio comprado e o Ministério Público de omissão.
Enquanto o presidente acusar com uma mão e distribuir com a outra, o único antídoto é a palavra que recusa o teatro — a palavra que desvela, expõe e resgata a verdade — exatamente como minha mãe, com sua sabedoria implacável, sempre reconheceu.
Devemos valorizar a ficção como um espaço de resistência e contestação.
Quando o poder se traveste de humildade para permanecer absoluto, quando a mentira se oferece como verdade e quando o silêncio se torna cumplicidade, resta apenas a coragem de dizer, com serenidade e firmeza: é mentira — e é preciso denunciá-la.
Ao afirmar que parlamentares se apropriam de recursos de emendas, o presidente normaliza aquilo que, em uma república madura, deveria causar escândalo. E, ao fazê-lo com a naturalidade de quem comenta o clima, transforma em rotina discursiva o que seria um fato delituoso.
E há algo ainda mais grave: se o que afirma for mentira, incorre em calúnia; se for verdade, prevarica ao não denunciar crime do qual tem conhecimento.
Em última análise, a ficção é uma forma de arte que pode impactar profundamente nossas vidas.
Em qualquer cenário, o problema já não é a frase — é a omissão, a leviandade e o desprezo pela responsabilidade republicana do cargo.
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.

