Hoje vamos falar um pouco da história das mulheres na cozinha.
Manaus, domingo 23 de Março 2025
A presença feminina na gastronomia sempre foi marcante em ambiente doméstico, mas a inserção da mulher nas cozinhas de restaurantes profissionais foi um processo longo e desafiador. Por muitos séculos, o domínio dos restaurantes e da alta gastronomia esteve nas mãos dos homens, afastando as mulheres a papéis secundários. No entanto, a luta por equidade de gênero e a valorização da mão de obra feminina na culinária modificaram esse cenário ao longo do tempo.
Embora as mulheres sempre tenham desempenhado um papel essencial na alimentação, a profissionalização da gastronomia as excluiu por muitos anos. No século XIX, com o desenvolvimento da alta gastronomia na França, grandes chefs como Auguste Escoffier estruturaram a cozinha profissional com base em uma hierarquia rígida, onde as mulheres dificilmente eram aceitas (Trubek, 2000). Os restaurantes de prestígio eram comandados por homens, enquanto as mulheres, quando empregadas, eram limitadas a funções auxiliares, como confeitaria e panificação.
A situação não foi muito diferente no século XX. Apesar da crescente industrialização e urbanização, que impulsionaram o setor de alimentação, os cargos de chef de cozinha continuaram predominantemente masculinos. A resistência em contratar mulheres para cozinhas de restaurantes era justificada por argumentos como a suposta fragilidade feminina e a incapacidade de suportar o ritmo intenso do trabalho gastronômico (Harris & Giuffre, 2015).
Primeiros Passos e a Luta por Reconhecimento
A mudança começou a ocorrer gradualmente a partir da década de 1960, impulsionada pelo movimento feminista e pela necessidade de mão de obra qualificada. Chefs como Eugénie Brazier, uma das primeiras mulheres a conquistar estrelas Michelin, foram pioneiras em desafiar o domínio masculino na gastronomia de alto nível (Ferguson, 2004). Nos anos seguintes, personalidades como Julia Child ajudaram a redefinir a visão do público sobre mulheres na cozinha profissional.

Apesar dos avanços, as mulheres ainda enfrentavam dificuldades para alcançar posições de liderança em restaurantes renomados. Muitas vezes, eram direcionadas a áreas específicas, como confeitaria, enquanto os homens ocupavam os postos mais valorizados da cozinha quente e do comando geral (Harris & Giuffre, 2015).
Situação Atual e Perspectivas para o Futuro
Atualmente, a presença feminina na gastronomia profissional é mais expressiva, mas ainda há desigualdades significativas. Estudos indicam que, embora muitas mulheres ingressem em cursos de gastronomia, poucas conseguem ascender a cargos de chef em restaurantes prestigiados (Harris & Giuffre, 2015). O assédio no ambiente de trabalho, a carga horária exaustiva e a dificuldade de conciliar a profissão com a maternidade são alguns dos obstáculos enfrentados.
Por outro lado, iniciativas como premiações específicas para mulheres chefs, programas de mentoria e redes de apoio têm ajudado a transformar o cenário. Grandes nomes da gastronomia feminina, como Dominique Crenn e Helena Rizzo, vêm consolidando seu espaço e incentivando novas gerações de mulheres a persistirem na profissão.


A inserção da mulher na cozinha de restaurante foi um processo de luta e resistência. Se antes a gastronomia profissional era um território quase exclusivamente masculino, hoje as mulheres conquistam cada vez mais espaço, embora ainda enfrentem desafios estruturais. O reconhecimento do talento feminino na culinária e a promoção da equidade de gênero são passos fundamentais para que o setor gastronômico continue evoluindo.
Referências Bibliográficas
- FERGUSON, P. P. (2004). Accounting for Taste: The Triumph of French Cuisine. University of Chicago Press.
- HARRIS, D.; GIUFFRE, P. (2015). Taking the Heat: Women Chefs and Gender Inequality in the Professional Kitchen. Rutgers University Press.
- TRUBEK, A. B. (2000). Haute Cuisine: How the French Invented the Culinary Profession. University of Pennsylvania Press.
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Verônica Marques – Gastrologa – Consultora de Alimentos – @docebandalheira – @veartefoto
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